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Somos comidos pelo que comemos

29 de agosto de 2018

| por Lúcia Soares |

Julia Lopes de Almeida (1862-1934) foi uma escritora carioca que fez muito sucesso, e teve um papel muito importante na orientação da mulher sobre a organização prática e científica do lar moderno que despontava no final do século XIX, e na fixação de seu papel como executora e gestora das atividades domésticas, ajudando-a a definir uma nova rotina para seus afazeres e de seus criados.

Grande defensora da cultura brasileira, em seus livros, Julia também conscientizava a mulher quanto à imposição dos costumes europeus sobre os nossos. Em O Livro das Donas e Donzelas, de 1906, a escritora dedica uma crônica à Arte Culinária, após uma visita à uma Exposição Universal, em Paris.

As Exposições Universais representaram um veículo para a difusão visual do ideário burguês onde seus valores e conceitos serviam para comparação e instrução, por meio da visualidade. Pretendia-se oferecer ali, não apenas o produto industrial em sua materialidade, mas, sobretudo, divulgar e ensinar às massas, como parte do papel missionário da burguesia, os próprios modelos burgueses, como se fossem um produto. Para conseguir esse objetivo, utilizavam a sedução e a pedagogia como estratégias de convencimento cercada de publicidade. Tratava-se, portanto, de uma maneira espetacular de introduzir a sociedade na ideologia capitalista do consumo.

Em seu texto, Julia observa que depois que o ofício de temperar panelas se enfeitou de arte culinária, passou a se manifestar como uma arte pródiga e fértil. Os temperos banais (alho, salsa, coentro, cebola, vinagre, etc.) da velha cozinha burguesa sucumbiram aos ingredientes com rótulos estrangeiros que compunham os novos pratos de nomes extravagantes, mas encantadores e apetitosos. Paralelamente, também se elevou o nível de exigência dos comensais, tornando-se uma ameaça, a ponto de sermos comidos pelo que comemos.

No esmero e na arte dos franceses em apresentar os biscoitos, os doces, os chocolates, as gelatinas, reforçada pelo mimo e elegância dos adornos, Julia percebe uma preocupação “gentilíssima em deleitar os olhos alheios”. E, se pergunta: que detalhes chiques poderiam receber os pratos brasileiros? “O feijão preto com o respectivo e lutuoso acompanhamento não se presta por certo para a coquetterie de um adorno mimoso, mas nem por isso deixa de ser da primeira linha”.

No entanto, foi, justamente, a feijoada estilizada do cozinheiro suíço, Eugène Wessinger que conquistou o poeta e escritor modernista paulista, Mario de Andrade, cerca de duas décadas mais tarde. Essa feijoada era um prato de rara beleza, cheio de cores, de tempero delicado e agradável, na descrição de seu amigo, Paulo Duarte. Como cozinheiro do Hotel Terminus, em São Paulo, Eugène teve a oportunidade de estilizar vários pratos da cozinha brasileira, inspirando Mario de Andrade. Quando diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo (1935-1937), Mario pensou em Eugène para cumprir essa missão, como podemos ver no Art. 231, da Seção VI: “A Divisão de Turismo e Divertimentos Públicos dará as necessárias providências para a instalação, na cidade de São Paulo, de um restaurante destinado a estilizar a culinária brasileira e a fazer a propaganda dos produtos e gêneros alimentícios nacionais”. Mas esse projeto nunca se realizou. Com a implantação do Estado Novo, em 10 de novembro de 1937, o sonho acabou.

Paulo Duarte, cofundador do Departamento de Cultura, via a verdadeira cozinha brasileira como aquela “encerrada no esoterismo dos fogões familiares das velhas famílias ou das antigas fazendas do Brasil, não a que era assassinada nas espeluncas de São Paulo ou do Rio”. Para ele, a feijoada é um prato delicioso que a vista repele, e seu aspecto desestimula os estrangeiros. Eugène morreu como diretor do Hotel Gloria no Rio, sem “dar um pouco de modos a essa gostosa, inteligente, mas mal-educada cozinha nacional…”

Já na crônica de Julia, ao contrário, ela afirma que a cozinha francesa estava se intrometendo em toda a parte, e não lhe agradava a ideia de que a nossa já estava muito modificada por ela. Essa também era a queixa do sociólogo pernambucano, Gilberto Freyre em seu Manifesto Regionalista, de 1926: “Raras são hoje, as casas do Nordeste onde ainda se encontrem mesa e sobremesa ortodoxamente regionais: forno e fogão onde se cozinhem os quitutes tradicionais à boa moda antiga. O doce de lata domina. A conserva impera. O pastel afrancesado reina.”

No texto, Julia fica imaginando que bela figura faríamos em uma Exposição Universal. No entanto, nós também tivemos nossas próprias exposições. A primeira Exposição Nacional aconteceu em dezembro de 1861, sediada no Rio de Janeiro, na Escola Central do Largo de São Francisco, sucedida pelas Exposições Nacionais na Casa da Moeda em 1866, novamente no Largo de São Francisco, na Escola Politécnica em 1873, e na Secretaria da Agricultura em 1875, cujo intuito era promover o país como sede de Grandes Exposições Universais. Desse modo, ressaltava-se a importância em promover a fraternidade entre as províncias do Império, a fim de obter o melhoramento da agricultura e da indústria nacional.

São Paulo realizou a sua Exposição Industrial, em 1917, atropelando seus paradoxos de miséria, doença, problemas habitacionais, fome e falta de higiene, etc., sob o pretexto de exibir suas marcas de civilização e modernidade. Essa exposição fazia parte de uma ideologia que já se propagava também pelas ruas, e nas encenações do cotidiano privado dos barões de café, onde fulgurava a espetacularização, baseada na estética da emergente arquitetura, e dos materiais e equipamentos recentemente descobertos pela ciência. A exposição marcou a inauguração do Palácio das Indústrias, construído sob a orientação do renomado Escritório Técnico de Ramos de Azevedo, como um espaço apropriado para abrigar esse tipo de evento.

Idealizada por Washington Luiz, a exposição paulista tinha o intuito de mostrar “a actividade assombrosa dos habitantes desta cidade, o surto prodigioso das suas indústrias”. De fato, o desenvolvimento industrial, desse período, graças às dificuldades de importação causadas pela Primeira Guerra Mundial, levou a capital paulista a viver um período de acentuado progresso. No entanto, entre os expositores haviam apenas três do setor de alimentos: Chocolate Lacta (fabricado pela Societé Anonyme de Chocolats Suisse), os Biscoutos Duchen e a Amideria Paulista, além de panelas de alumínio e máquinas para a lavoura. A debilidade desse parque industrial pode ser observada no alto percentual de manufaturas e de artesanato que chegavam a corresponder a 90% do valor total da produção paulista. As indústrias representadas na exposição tinham capitais robustos, oriundos de sólidas fortunas provenientes de latifúndios ou conquistadas a partir de negócios mantidos por gerações, enquanto as outras indústrias erguidas com poucos recursos, foram mantidas fora da feira. Isto é, nossa exposição era “para inglês ver” …

Julia refere-se, então, por fim, às nossas frutas, e nossos doces, pois, já lhe parecia “tempo de lhes irmos dando a merecida importância. Não há nenhum brasileiro que conheça todas as frutas do seu país. O europeu desdenha-nos nesse sentido; esquece-se de que em muitos lugares do Paraná, Minas e Rio Grande, desenvolvem-se peras magníficas, damascos, cerejas, nozes, etc. E as frutas e as hortaliças indígenas? Inumeráveis! O que falta à nossa gourmandise é poder agrupá-las, poder escolher, na mesma terra, estas ou aquelas, e isso só se poderá fazer se houver aqui, algum dia, como agora em Paris, quem dê importância à mesa, e procure, por meio de exposições, facilitar esse ramo de comércio, educar o povo, e dar-lhe um elemento novo de prazer e de saúde”. E era o ano de 1906…

 

REFERÊNCIAS

A cigarra, Ano IV, nº78, 31 de outubro de 1917.

ALMEIDA, Julia Lopes. Arte Culinária In: O Livro das Donas e Donzelas, 1906. http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bi000171.pdf

ALMEIDA, Congressos e exposições cientificas: temas e fontes para a história In: Ciência, Civilização e República nos Trópicos, 2010.

BARBUY, Heloisa. A exposição Universal de 1889 em Paris: visão e representação na sociedade industrial. São Paulo: História Social USP/Editora Loyola, 1999.

______________. A cidade-exposição: Comércio e Cosmopolitismo em São Paulo, 1860-1914. São Paulo: Edusp, 2006.

CARONE, Edgard. A Evolução Industrial de São Paulo (1889-1930). São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2001.

DUARTE, Paulo. Mario de Andrade por ele mesmo. São Paulo: EDART São Paulo Livraria Editora Lda, 1971.

FREYRE, Gilberto. Manifesto Regionalista. 7.ed. Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1996. p.47-75. http://www.ufrgs.br/cdrom/freyre/freyre.pdf

Jornal O Estado de São Paulo, 01/10/1917, p.2.

LIMA, Paula Coelho Magalhães. “A exposição de 1917 no Palácio das Indústrias em São Paulo: representações do industrialismo na metrópole nascente.” Programa de Pesquisa em História e Cultura Material do Museu Paulista da USP.

LUZ, Nícia Vilela. A luta pela industrialização do Brasil (1808-1930). São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1961.

PASSOS, Maria Helena Perrone F. (coord.) Evolução Urbana da Cidade de São Paulo: Estruturação de uma cidade industrial: 1872 – 1945. São Paulo: Eletropaulo, 1989.

PESAVENTO, Sandra Jatahy. Exposições Universais: Espetáculos da Modernidade no Século XIX. São Paulo: Hucitec, 1997.

PLUM, Werner. As Exposições Mundiais do Século XIX: Espetáculos de transformações socioculturais. Bonn: Friedrich Ebert Stiftung 1979.

| imagem superior: A escritora Julia Lopes de Almeida e a filha, a declamadora Margarida Lopes de Almeida – Acervo familiar / Divulgação fonte

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