CONFEITARIA, UM TANTO DE TUDO

Como pensar fora da caixinha?

20 de julho de 2017

A profissão de confeiteiro nasceu através da descoberta do açúcar. É fato histórico que me ensinou o professor Ricardo Maranhão. Acreditei na sua sabedoria e propago a afirmação por aí – desejando ainda poder arranjar um tempo de mergulhar em livros e saber mais a respeito. Do açúcar ela passou a depender exclusivamente da indústria. Tudo vem em um saco ou em uma caixa. Dependemos do que a indústria produz – e sabe-se lá como!

A fruta vem em uma lata, em pasta – com ou sem semente, você escolhe. A farinha, branqueada, purinha. Para venda? Apenas um tipo. Quem precisa se preocupar com isso? Resquícios de qualquer lembrança do que seria o alimento natural? Zero! Nenhum confeiteiro precisa se preocupar se o ovo que utiliza vem de galinhas criadas livres ou daquelas que vivem amontoadas. A felicidade está em um pote de Nutella!

Dessa maneira a confeitaria se tornou um braço da indústria, muito diferente da cozinha quente. Hoje existe uma ode ao orgânico, ao pequeno produtor. Finalmente! O que um confeiteiro pode fazer para seguir a “tendência”? Conhecer, pelo menos, a indústria que lhe presta serviço? Aproximar-se, criar um laço?

Impossível! A indústria está interessada demais em contratar o ator global para estrelar sua próxima campanha. Do que importa o confeiteiro que vive encarcerado na sua cozinha?

O cozinheiro se acerca de quem produz a matéria prima para que ele possa, com seu talento, faze-la brilhar! A confeitaria? Estamos envolvidos em uma nuvem de leite em pó.

Dizem que a confeitaria é precisão. Não desminto. Realmente é. E é técnica, pura técnica. E por isso qualquer um pode pegar uma receita, ir ao supermercado, e se fingir confeiteiro.

O que estou querendo dizer é que a confeitaria é de fácil reprodução… e por isso talvez tenhamos tantos doces “iguais” espalhados por aí.

Quando a vida me dá algumas horas de folga eu vou atrás de bons doces. Em uma loja como um mil folhas – eleito o melhor de São Paulo – em outra loja vejo o mesmo doce. Provo, para comparar, claro. Depois sigo para outra loja que está fazendo um festival de mil folhas porque viu uma outra confeitaria fazendo, e sabe que foi sucesso. Me decepciono. Ideias iguais, conceitos iguais, doces iguais. Tedioso.

Decido mudar de escolha. Vou para a bomba de chocolate. Canso. Vou em outra confeitaria afim de comer outro doce. Mas tudo que me oferecem é bomba de chocolate. Com o mesmo gosto, a mesma cara, o mesmo chocolate.

O que nos resta? Eleger a melhor bomba de chocolate, o melhor mil folhas, algo que faça o comum se tornar divertido. Mas identificar – e valorizar – aqueles que pensam fora da caixinha e que na tentativa de prestar melhores serviços à profissão conseguem se destacar com talento em meio a tanto brigadeiro, isso não fazemos não.

Que tal aprender mais?

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