COLUNISTAS, CONFEITARIA

Xarope de maple – mais do que um ingrediente, um símbolo nacional

17 de maio de 2017

[por Stefânia Tissot]

O inverno é aquela época do ano que sinto necessidade de buscar conforto nas minhas escolhas culinárias. Sempre foi assim. Desde meu primeiro dezembro glacial até a ultima neve do ano por volta do mês de abril, sempre me vi buscando conforto para as baixas temperaturas na cozinha, aquele conforto que é diretamente ligado aos aromas de um bolo assando ou de uma xícara de chá fumegante. Essa busca é inevitavelmente inspirada pela tradições que aqui encontrei. Parte da beleza de buscar o desconhecido e se mudar de país é também aprender o que a cultura local te proporciona, e por aqui, nessas terras geladas do Canadá, é impossível falar de gastronomia e não falar do maple (bordo). Esse ingrediente icônico é para os canadenses uma fonte de orgulho e identidade coletiva, é associado tanto ao seu estilo de vida quanto à identidade nacional do povo e participou da construção da história desse belo país que tão bem me acolheu.

Tudo começou muito antes da chegada dos Europeus no Novo Mundo. Os índios já extraiam, durante a primavera, a seiva do bordo, ou água de maple e a ferviam até obter uma espécie de xarope. Com o tempo, o processo de extração e produção do que conhecemos como xarope de maple foi se desenvolvendo e, por volta do início dos anos 30, o Canadá já era o maior produtor e exportador mundial desse ingrediente; atualmente, 80% de todo o xarope de maple consumido no mundo provém do Canadá, sendo que 75% mais especificamente da província do Québec. O assunto é levado tão a sério pelos locais, que existem órgãos regulamentadores que validam se a produção desse néctar primaveril, ou ouro líquido como chamado por muitos locais, seguem as regras estabelecidas afim de preservar as características de base do produto. Sendo assim é seguro dizer que o maple faz parte do DNA do povo canadense, o que não é surpreendente, pois com seu sabor único, suas múltiplas aplicações na confeitaria ou na cozinha em geral, é impossível não se apaixonar por esse ingrediente.

A ligação desse ingrediente com o inverno também representa o inicio das preparações para o que conhecemos como as Cabanes à sucre (tradução de cabana de açúcar), onde todo o processo de extração e produção do xarope de maple e suas variações (açúcar, manteiga, pasta, etc) acontece. É durante essa estação que as árvores são preparadas para que, ao fim do inverno, a seiva seja extraída e assim poder transformá-la nesse elixir doce. Essas cabanas, além de símbolo máximo na cultura canadense, trazem na memória aqueles momentos que celebramos a produção do xarope de maple em todas as dimensões, gastronômicas e culturais, são momentos de festa, de celebração. Momentos esses alusão aos dias com temperaturas mais amenas e noites frias que nos avisam que a primavera bate à porta e que a seiva das árvores começará a subir tranquilamente para nos presentear com a água do maple que será extraída para logo virar o xarope, e assim podermos devidamente celebrar o temps de sucres.

Finalmente, o xarope de maple mais do símbolo nacional, representa para esse povo mais do que uma metáfora, ele aporta uma dimensão coletiva e afetiva. Ele nos remete à uma tradição que se renova todas os anos, ao redor de uma mesa em volta de boa comida, ele representa à transformação que a primavera nos traz, ao recomeço, à sensação que algo novo e melhor esta por vir.

imagem Jennifer Pallian 

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