UM TANTO DE TUDO

Cartas anônimas | Flor

24 de abril de 2014

1.

Ele estava sentando sozinho em um banco muito distante de mim. Mas mesmo com o Sol ofuscando minha vista pude vê-lo gargalhando, como se o som – inexistente, tamanha distancia– pudesse viajar com o vento até meus ouvidos.

Sorri. Afinal, é o que fazemos quando vemos um senhor de idade, sozinho, com sua bengala, ainda apaixonado pela vida.

Peguei meu skate e despretensiosamente tentei me aproximar, como quem não quer nada. Dei algumas voltas em torno do banco, ouvi alguns sussurros, suspiros e as vezes, um sorriso se abrindo docemente. Em algum momento creio ter visto uma lágrima, brilhando iluminada pelo Sol. Foi então que me sentei. Pum! Como se tivesse caído, querendo chamar atenção. Mas nada… Ele continuou ali, apoiado em sua bengala, com o olhar perdido dentro de seus pensamentos.

Disfarcei e tentei olhar um pouco mais fixamente para ele. Ao lado do seu corpo um buque de flores do campo, que de repente ele buscou com as mãos, certificando-se que ainda estavam lá. Nada mais.

Abriu seu último e mais leve sorriso, levantou com dificuldade, apoiando-se em sua bengala, e foi embora deixando o buque ao meu lado.

Balbuciei querendo avisá-lo do esquecimento, mas então parei. Olhei o buque fixamente e senti um aperto no coração, voltei o olhar para o senhor e o vi partir, tornando-se mais uma vez distante de mim, ofuscado pelos raios de Sol.

***

2.

Olhei mais uma vez para o buque, mais uma vez para o senhor… mais uma vez para o buque e decidi segui-lo.

Não sei, só o fiz.

Ele poderia ser sim qualquer velhinho caminhando pelo parque, podia ser sim qualquer pessoa deixando para trás algumas flores colhidas só por colher que depois iriam morrer, largadas em um canto qualquer. Mas para mim aquelas flores não morriam, elas viviam nele, dia após dia, de alguma maneira.

Ele caminhava muito lentamente, apenas olhando para o chão. Talvez com medo de tropeçar, mas eu achava que não… ele parecia não querer que novas imagens se fixassem no lugar das antigas, então, as guardava cuidadosamente, apenas mantendo o olhar fixo em seus sapatos gastos.

Quando dei por mim estávamos diante de um restaurante moderno, abarrotado de gente jovem. Ele entrou e se deslocou diretamente para os fundos, passando totalmente desapercebido enquanto eu fui barrada:

– Mesa para quantos?

– Ah… errrr. Uma.

– Por aqui Senhora.

– Errrr, posso sentar ali nos fundos?

– É que as mesas estão todas reservadas.

– Ah… então tudo bem, vou embora. Eu só est….

-Só um momento…

Alguns poucos segundos de conversa com o gerente renderam um:

– Por aqui senhora.

Sentei-me bem diante dele. Estava com as mãos cruzadas sobre a mesa, com o mesmo olhar fixo. Segui seu olhar com o caminhar dos meus olhos e nada. Ele não olhava para nada. Não bisbilhotava a conversa alheia, não se incomodava com o choro incessante da criança ao nosso lado, não se importou quando derrubaram sua bengala. Nada! Seu olhar fixo navegava por lugares que eu não tinha permissão de entrar.

Ficou ali, parado, estático, enquanto eu me escondia por trás de um cardápio com um garçom irritado insistindo pelo meu pedido.

– Senhora, a casa hoje está cheia e seria bom realizar seu pedido para ele não atrasar muito seu almoço.

– Ah… o mesmo prato daquele senhor.

O garçom virou o pescoço, sorriu, escreveu qualquer garrancho no seu bloco e partiu.

Acho que o senhorzinho era uma fonte doce de sorrisos.

***

3.

Realmente o restaurante estava cheio e meu prato demorou um bocado. E durante toda essa espera interminável o senhor olhava para o mesmo lugar, seus pensamentos.

Aquilo, confesso, me entediou um pouco. Mas ao mesmo tempo me fez pensar em mais um outro bocado: na minha vida.

Eu estava ali, sozinha como ele. Alguns tantos anos a menos, experiências de menos, tudo de menos, na maior injustiça de quem poderia vencer alguma coisa na guerra que tracei na minha cabeça, tentando me sair melhor na situação. Mas aparentemente ele sabia lidar melhor com os menos dele… talvez porque um dia ele tenha tido o mais, imaginei. Por um instante fiquei triste, por mim e também me permiti me perder e olhar para o meu lugar proibido para estranhos.

O prato chegou e eu despertei. Antes de admirar o que já chamava atenção do meu olfato olhei para o senhor, que sem sinal de animação, somente segurou o garfo e começou a comer. Lentamente, do mesmo jeito que andava.

Eu, devorei. Não sabia o que esperar mas fui surpreendida por uma confortante mistura de legumes assados com sonoros nacos de pão e uma taça potente de vinho.

Por muitos momentos me esqueci do velhinho e me afundei em sabores simples e frescos. Era como se eu estivesse me transportado para o alto de uma montanha e de lá pudesse admirar a imensidão do mar enquanto o Sol aquecia meu corpo e aromas de orégano fresco eram trazidos pelo vento.

Podia ouvir uma música ao fundo animando gargalhadas que transbordavam a alegria de um grupo de pessoas. Elas dançavam com os braços erguidos, esbanjando sorrisos largos manchados de vinho. Entre elas um casal apaixonado, que em silêncio no meio de tantos ruídos, sorriam com os olhos, um do outro.

– Senhora, mais vinho?

Como em um transe voltei. Olhei um pouco perplexa para o garçom, o admirei acho que por muitos segundos, pois o senti um pouco encabulado.

-Não, só a conta, por favor.

Quando retornei meu olhar a minha atenção ao senhorzinho a mesa estava vazia, com pessoas já aprumadas para se sentar. Meu coração disparou, corri os olhos por todo salão procurando-o….

– Aqui está senhora.

– Por favor, aquele senhor…

– O Sr. Alfredo?

– Ah, você o conhece?

– Claro! Ele era dono do restaurante antes de abrirmos esse aqui.

– Jura?

– Sim. A esposa dele, já falecida era uma cozinheira de mão cheia, e ele abriu o restaurante para ela.

– Ah… e como se chamava?

– Cantina da Flor.

– Devia ser o nome dela.

– Sim. Quando ela faleceu ele vendeu o restaurante. Mas todos os sábados come aqui conosco, que reproduzimos um prato que a esposa fazia para ele, que foi o mesmo que você comeu.

– Oh.

– Posso trazer a maquininha?

Fui embora caminhando lentamente, admirando o chão. Por um instante, ouvi novamente aquela música tocando, o casal sorrindo um para o outro e na porta uma placa dizia: Cantina da Flor.

Sorri.

*****

Não sou permitida a revelar as fotos que tiro dos estranhos que me inspiram a essas conversas. O texto foi feito através da imagem de um senhor almoçando sozinho em um restaurante moderno em Pinheiros. Na foto, muitas pessoas atravessavam seu caminho, e nela só é possível ver seus olhos imóveis no prato. Ele usava suspensórios, tinha uma bengala e comia olhando fixamente para baixo, nunca para a mesa ao lado, nem que para bisbilhotar a conversa alheia.

Ele comeu risoto de frutos do mar e bebericou uma cerveja. Eu, no texto, recriei as sensações do prato que havia feito para meu almoço. Briam.

Quando olhei novamente na mesa, já não estava mais lá.

Fiquei com uma foto borrada e um desconhecido no coração.

Um domingo qualquer de outono em 2014.

 

Que tal aprender mais?

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